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Rio Grande do Norte, a esquina do mundo no Brasil

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Rio Grande do Norte. Touros, São Miguel do Gostoso e Natal. É esta a nova Santíssima Trindade na zona mais ocidental do Nordeste brasileiro. Onde a Natureza ainda manda mais do que o Homem. Locais pouco visitados pelos portugueses para ficar a conhecer em primeira mão

 

Texto de Filipe Gil
Fotografias de Orlando Almeida/Global Imagens

 

Touros. O nome deste município brasileiro do estado do Rio Grande do Norte provém das rochas que, vistas do mar, se assemelham a uma manada de touros. Este é um local que diz pouco à grande maioria dos portugueses. Por enquanto. Está a cerca de hora e meia do aeroporto de Natal, na chamada esquina do Brasil, um ponto carregado de história. Diz-se que este terá sido o primeiro local onde Pedro Álvares Cabral pisou terra brasileira. Touros rivaliza com Porto Seguro como o sítio de desembarque dos portugueses há mais de quinhentos anos.

Polémica à parte, os argumentos são muitos e alguns fazem sentido, mas, como sabemos, a história dos livros por vezes é escrita direita por linhas transviadas. Certezas absolutas não as há. Comprovado sim é que foi aqui que os portugueses deixaram o primeiro marco de posse colonial, que hoje pode observar-se na fortaleza dos Reis Magos, na cidade de Natal – no centro urbano de Touros há uma réplica. Tudo o resto é um misto de incerteza e de bairrismo. É um apontamento sim, mas que dá ainda mais charme e razões para visitar esta região ainda desconhecida por muitos.

 

Foi o que fizemos. No Brasil as manhãs raiam cedo. E o calor também. Principalmente no estado do Rio Grande do Norte onde o inverno só o é de nome. Depois de quase nove horas de viagem – com transferes incluídos – o amanhecer em Touros foi suave, ao som dos pássaros, das ondas e com um odor intenso a terra, a mar, a calor, a Brasil.

A viagem do dia anterior, feita na noite cerrada, não deu aos sentidos quaisquer informações sobre os locais por onde viemos. Acordamos no novo, por estrear, Vila Galé Touros, o maior resort turístico deste estado brasileiro e que promete revolucionar o turismo da zona – assim o defendem os seus responsáveis. Mal saímos do quarto, a curiosidade imediata foi pelo trecho da praia de Touros mesmo em frente ao resort. No total, o município conta com trinta quilómetros de praias de areia branca e águas mornas – entre os 26 e 28 graus centígrados, ou não estivéssemos apenas cinco graus abaixo da linha do equador. Nestas paragens o vento acompanhou-nos permanentemente durante os cincos dias de estada. Os habitantes locais juram a pés juntos que ameniza a partir do fim de setembro. Acreditamos. De qualquer forma, torna-se uma preciosa ajuda para suportar a temperatura de trinta graus ao início da manhã.

 

Nota-se pelo comércio ainda pouco preparado para o fenómeno turístico que todos esperam que chegue. São trinta mil habitantes que vivem ora da pesca, ora do pouco turismo ou do trabalho para o Estado. Nas férias de verão e no Carnaval o município ganha vida e as ruas enchem-se de muitos habitantes da cidade de Natal.

 

No centro da vila está a Igreja do Bom Jesus dos Navegantes, que data do século xix. Felipe, nascido e criado em Touros, explica-nos que a igreja foi edificada no local onde foi encontrada a imagem do padroeiro, no mesmo rio Maceió que atravessa timidamente a localidade. Dali à praia principal são menos de dois minutos a pé. Metemos conversa num português adocicado e lento. Por vezes temos de dar razão ao escritor, poeta e jornalista Millôr Fernandes, que afirmou que esta é uma língua que nos desune. No café, ou boteco, O Brisa Del Mar, há gente a jogar às cartas. Trocam conversa fiada, vestem T-shirts do América, um dos clubes de futebol de Natal, enquanto bebem cachaça acompanhada de goiabas, como se fosse sina viver neste local abençoado pela natureza.

 

A 13 quilómetros está outro dos pontos de interesse da região: o farol do Calcanhar. Os seus 62 metros de altura e 298 degraus fazem dele o maior do Brasil e o segundo da América do Sul. E é ali bem perto que se inicia umas das maiores estradas do país, a BR 101, que só termina cinco mil quilómetros depois no estado do Rio Grande do Sul. A estrada percorre o litoral brasileiro atravessando pelo caminho 12 estados deste imenso país. O quilómetro zero da estrada está assinalado e é motivo de paragem para muitas fotos mesmo por debaixo de um arco de cimento desenhado por um dos grandes arquitetos brasileiros: Óscar Niemeyer. Estes são, talvez, os únicos pontos de interesse da zona feitos pelo homem. O resto são dádivas naturais como os parrachos de Perobas.

 

O município de Touros tem trinta quilómetros de praias de areia branca e águas mornas. Nestas paragens o vento acompanhou-nos durante os cinco dias de viagem, Os habitantes locais juram que ameniza a partir do fim de setembro.

Em mar alto com água pela cintura

Saímos do resort Vila Galé, por estradas de terra alaranjada, e chegamos à praia de Perobas, onde embarcamos com os experientes guias locais para ir ver os parrachos – não há site ou folheto que não fale nesta atração natural. Vinte minutos de barco depois damos com essas piscinas naturais onde a água fica pouco acima da cintura – e onde as rochas abrigam um sem-número de peixes. A viagem até lá é no mínimo agitada. Com os olhos postos no farol de listas vermelhas plantado no meio do mar, o grupo enfrenta a viagem fustigado pelas ondas. Ninguém escapa à molha, nem mesmo uma famosa blogger brasileira que se juntou à comitiva. Apesar do aparato e da mordomia, que aqui não rimou com simpatia, a estrela das redes sociais molhou a maquilhagem tanto quanto molhamos todos os nossos pertences.

Agitada ou não, é uma viagem que merece a pena. As águas transparentes, mais frias do que na praia, merecem um pouco de sacrifício. Uma hora é o permitido para estar no local. Mais do que suficiente para colocar os óculos de mergulho e observar o fundo do mar. A sensação de estar no meio do mar, a caminhar entre rochas, com a costa lá longe, remete-nos para o imaginário das Caraíbas.

 

A vinte minutos de navegação da praia de Perobas, em mar alto, um conjunto de recifes permite, consoante a maré, ter água pela cintura e observar a fauna marinha.

Regressados à praia de Perobas, há a opção sensata de ficar por ali a comer lagosta grelhada ou a adoçar a boca com os doces de Val, brasileira que já viveu em Itália e que agora conquista turistas com aos seus petiscos feitos em casa. É uma ajuda para criar os seus três filhos.

São Miguel do Gostoso

Ao terceiro dia fomos ver o melhor pôr do Sol do mundo, segundo as gentes desta esquina do Brasil. É na praia de Tourinhos, a poucos quilómetros de São Miguel do Gostoso, que se dá o fenómeno, mas já lá vamos. Antes é preciso saber que São Miguel do Gostoso, que já foi de Touros, fica a cerca de 25 quilómetros do resort. É mais um local preparado para o turismo e é considerado, graças aos ventos da região, um paraíso para windsurf e kitesurf. Em Gostoso, porta sim, porta não existem pousadas e lojas, lojas e pousadas. O lema local é «aqui se faz gostoso» e a frase diz tudo. Sobretudo quando a noite cai e a vila ganha nova vida com as cores intensas dos mais de vinte restaurantes, alguns na rua principal, outros à beira da praia. De sushi à comida regional – com a lagosta a ser ponto assente – até pratos com bacalhau, ou não fosse o Brasil um dos países do mundo onde mais se consome este peixe.

Saindo do Vila Galé Touros é possível partir e conhecer os locais bem interessantes em redor, como São Miguel do Gostoso ou o farol do Calcanhar.

São várias as praias de areia branca que servem São Miguel do Gostoso: praia do Cardeiro, praia da Xêpa ou praia do Maceió. Todas elas com restaurante e bares de apoio onde se pode beber uma refrescante água de coco ou pedir uma caipirinha de cajá – um fruto local. Experimente, não se vai arrepender. Entre as praias há a de Tourinhos. Sim chegou a altura de lhe explicar que a 15 minutos do centro de São Miguel do Gostoso – acessível por carro ou buggy – há uma pequena baía ladeada por formações rochosas de dunas petrificadas há mais de 2500 anos. Local de que se diz também ter sido o último onde os holandeses se abrigaram, depois de terem sido definitivamente expulsos da região pelos portugueses no século XVII.

Nesta mesma praia, com segurança, há um bar de serviço onde se ouve música e se bebem as caipirinhas que só no Brasil têm aquele sabor. Por vezes há pequenas mostras para os turistas saberem o melhor que a região tem para oferecer, quer em serviços quer no que respeita à doçaria local. Como a deliciosa cocada na quenga. E não, não é isso que está a pensar, é um doce de coco num recipiente que se chama quenga. Entretanto, na praia e depois de vermos inúmeros casais apaixonados a fotografarem juras de amor e alguns Instagram husbands de smartphones em punho a mando das suas caras-metades, começava o espetáculo do pôr-do-sol. E há que dizê-lo, se não é o mais bonito, anda lá perto. Para um português escrever estas linhas não é fácil. Achamos que temos, de norte a sul de Portugal, vistas fantásticas para o por do Sol aqui da esquina da Europa. Mas este, em Tourinhos, é diferente. É tropical, quase mágico, e mesmo o parque eólico que se interpõe na despedida do astro ajuda o ar bucólico. Faz-nos respirar fundo, estar em paz com o mundo e pensar que, se calhar, este local foi mesmo criado por Deus. Ou abençoado pela natureza.

E, por fim, Natal

Ir a Touros e não visitar a capital do estado, Natal, é o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa. Tal e qual. Vale a pena a visita nem que seja por um par de horas. Saímos de Touros bem cedo, com guia – o que é sempre aconselhável -, e em menos de hora e meia estávamos a passar a ponte Newton Navarro sobre o rio Potengi, já em Natal. A imponente estrutura torna-a um dos símbolos da cidade desde a sua inauguração, em 2007. Lá de cima bem alto, para os navios de grande porte passarem por baixo, vê-se outra das grandes atrações turísticas: o forte dos Reis Magos, uma das maiores heranças dos portugueses que fundaram a cidade a 25 de dezembro de 1599.

Natal é uma cidade com alguns pontos de interesse no que toca a arquitetura colonial, com alguns casarios e igrejas. A sua beleza está mais na orla marítima. Mesmos assim quisemos sentir a cidade e, apesar de renitente, o guia que nos acompanhou deixou-nos à nossa mercê na zona central da cidade. Ali bem perto da Igreja de Nossa Senhora da Apresentação, a curta distância do Memorial Câmara Cascudo – jornalista, advogado, historiador e antropólogo e um dos nomes mais ilustres da cidade.

Deambulamos por ali, e damos de caras com a Igreja do Galo de Santo António. Informação passada rapidamente, sem que a tivéssemos pedido, por alguns dos habitantes locais. Estava na cara que o ar de turista não nos tinha abandonado. E o mesmo aconteceu quando fomos para outra zona da cidade e visitámos um dos locais imperdíveis: a praia da Ponte Negra. Pelo caminho, mais dois pontos quase obrigatórios: o Parque das Dunas, imensa reserva natural de Mata Atlântica situada bem no centro da cidade e que é Património Ambiental da Humanidade (segundo maior parque urbano do Brasil, apenas superado pela Floresta da Tijuca no Rio de Janeiro); e o Shopping do Artesanato Potiguar – é lá que vai encontrar inúmeras lojas que vendem artesanato e os doces locais para trazer como recordação.

Mas uma vez chegados à praia da Ponte Negra fomos em direção ao morro do Careca, uma duna com mais de cem metros de altura. Até à década de 1990 era possível deslizar pela duna, mas hoje é proibido a bem da preservação de um dos cartões-postais mais importantes de Natal. A praia impressiona. Se olhamos para um lado vemos os arranha-céus do centro da cidade lá ao longe, mas se olharmos para o outro vemos vegetação do mais verde que há. É isto que é o Brasil, certo?

 

Morro do Careca, um dos locais mais fotografados de Natal, é uma duna com cem metros na qual, até meados de 1990, os visitantes deslizavam. Hoje está vedado a bem da sua preservação.

Nesta praia não faltam restaurantes e cafés com serviço às mesas plantadas na areia. Nada tem que ver com a tranquilidade das praias quase desertas de Touros. A cada cinco metros há vendedores de comida e bebida que teimam em falar espanhol connosco. A razão, explicam-nos em castelhano apesar do pedido para falarmos em português, é a afluência de argentinos ao local. Por esta altura surge a questão: e é uma praia segura? Fizemos a mesma pergunta. Garantiram-nos que sim. Esta praia é o ganha-pão de muitas famílias e, apesar de sabermos que as favelas, ou comunidades, estão atrás de alguns dos prédios com vista para o mar, o turismo fala mais forte. Tal como o desejo de adrenalina. Daí termos seguido, passado pouco tempo, para outra das grandes atrações de Natal: os passeios de buggy pelas dunas de Genipabu.

Sempre com emoção

 

 

Os buggys alugam-se com condutor, os únicos com permissão para conduzirem no meio das dunas. Com capacidade para quatro pessoas, a viagem é feita com ou sem emoção. Pedimos com emoção moderada, mas ou o vento que soprava não levou a mensagem ao condutor ou há sempre emoção nestas viagens – é difícil não o ter quando se descem dunas com mais de trinta metros de altura…

No percurso que fizemos visitámos, ao longe, a lagoa de Genipabu, onde nos esperava um empreendedor local com um pequeno crocodilo de plástico na mão preparado para a foto da ocasião. O boneco é alusivo aos crocodilos que habitam, graças à intervenção humana, a dita lagoa que fica uns bons trinta metros abaixo de uma duna. Ainda perdemos alguns minutos a tentar ver os animais, sem sucesso. Mas este não foi o único encontro estranho. Depois de mais uns metros de emoção bugueira, damos de caras com dromedários. Sim, leu bem. É outra atração local. O objetivo é fazer passeios de vinte minutos em cima destes animais pelas dunas, com se estivéssemos no deserto.

 

Os passeios de buggy terminam inevitavelmente com uma refeição de petiscos locais. A lagosta é rainha.

A ideia foi levada para ali por um suíço e mimetizada noutras praias da zona. Apesar do esforço, da indumentária e de muitos turistas brasileiros não perderem a oportunidade de montar um animal que só veem em jardins zoológicos, é um cenário demasiado surrealista e kitsch para tanta beleza natural que rodeia o sítio. Antes de regressarmos ao resort de Touros, aconteceu uma lagosta grelhada num dos restaurantes de praia que fecham o circuito do turismo, bem montado, em volta dos passeios pelas dunas. O vento, o sol e a emoção das rápidas descidas fizeram-nos regressar com muito para contar. Há imagens que ficam gravadas na memória.

Apesar da pobreza, não encontramos lamentos nas pessoas que vivem ali. Como escreveu Eça de Queirós «o brasileiro é o português dilatado pelo calor». Saímos dali com um desejo: voltar.