Home DESTINOS Em Nova York, um linha desativada do metrô, “High Line” é um passeio obrigatório

Em Nova York, um linha desativada do metrô, “High Line” é um passeio obrigatório

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A mágica Nova York seduz pela sua diversidade cosmopolita, e principalmente porque se transformou num caixinha de surpresa.  Uma delas é a High Line, uma linha de comboio em altura que foi recuperada, n Sul de Manhattan e hoje faz parte do roteiro turístico.

Além de roteiros sobre lugares de filmes, livros, reportagens, revistas, Nova York oferece o magnetismo da selva de pedra que se criou e a High Line é um dessas atrações.

Hingh Line começa na zona onde está desde 1952 a sede das Nações Unidas: a 1.ª Avenida, na baía das Tartarugas – a Turtle Bay que empresta o nome ao edifício-sede projetado pelo arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer.

 

É na verdade um complexo que envolve o edifício alto e esguio do Secretariado, o outro baixo e sereno da Assembleia Geral, dando espaço a uma praça pública. Há ainda o edifício da Biblioteca, construído mais tarde.

Não foi nada pacífica para o arquiteto brasileiro esta obra, porque tinha a forte e insistente pressão do seu mestre Le Corbusier, interessado em deixar ali a sua marca. Foi confusa a situação, com Niemeyer a retirar-se elegantemente, para dar espaço ao francês nascido na Suíça, mas o projeto que tinha foi claramente preferido por quem decidia e acabaram por fazer um compromisso entre os dois arquitetos.

 

Há sempre um português nas histórias de viagens, e este é pouco anónimo. É que foi ali, na sala esplendorosa em dourado da Assembleia Geral, que António Guterres passou a ser formalmente secretário-geral das Nações Unidas no dia 12 de dezembro do ano passado, perante uma audiência que o aplaudiu repetida e longamente.

 

Centrados portanto na 1.ª Avenida e arredores, ali andámos, o fotógrafo e eu, embrenhados em trabalho e muitas medidas de segurança, sobe por ali, desce por acolá, não podem ir por esse lado, mostrem as mochilas. É a sede das Nações Unidas, onde se cruzam todos os dias diplomatas e funcionários de todo o mundo, a segurança está justificada. Aliás, é território alugado à organização, internacional por excelência, não está sob a soberania do país hospedeiro, os Estados Unidos da América.

 

E no entanto o edifício é acessível ao público, ou melhor, tem no piso térreo espaços que podem ser visitados e até há visitas guiadas. E é bom, isso, porque há muitas obras de arte de grandes autores mundiais ali instaladas. Para abrir as (não) hostilidades, a escultura Non-Violence, um enorme Colt cujo cano está dobrado num nó. É um dos três exemplares originais da peça do sueco Carl Fredrik Reterswärd, feita na sequência do assassínio de John Lennon. Os outros estão na sede da Comissão Europeia, no Luxemburgo, e em Malmö, na Suécia, e há mais 18 cópias, de Pequim à Cidade do México. Esta é apenas uma das peças que o visitante pode admirar, e está ao ar livre para que todos a vejam.

Dei esta volta ao texto apenas para fazer caminho para o outro lado da ilha de Manhattan, onde se desenrola a High Line e onde fico a saber da existência do meu novo herói Piet Oudolf, holandês nascido em 1944 na antiga capital dos Países Baixos, Haarlem – que veio a dar origem a Harlem, bairro originalmente holandês, em Manhattan. Na verdade, Piet Oudolf não é o herói único e absoluto desta história, que resulta acima de tudo da vontade dos moradores da zona. Eles é que se organizaram e impediram o desmantelamento da linha ferroviária que tinha sido desativada em 1980 e estava coberta de lixo e plantas selvagens. Ainda hoje são os Friends of the High Line, uma organização não lucrativa, que gerem o espaço, o qual é propriedade da cidade de Nova Iorque, e são eles que juntam os fundos necessários para lhe dar a animada vida cultural que tem desde a inauguração do primeiro troço, em 2009, acrescentado de um segundo em 2011 e completado por um terceiro em 2014.

Não foi assim tão simples, foi preciso muito trabalho, muitos projetos e estudos de viabilidade, e certamente muito lobbying, mas a velha linha por onde tinham passado desde 1934 tantos comboios carregados de mercadorias ficou mesmo de pé, mantendo aquelas plataformas à superfície que fazem parte da paisagem da cidade.

É aí que aparece o velho Piet, como figura central da equipa numerosa e variada – interdisciplinar, pois claro – que tratou da mudança. Ele é o plant designer, é essa a profissão dele, e trabalhou com a empresa de paisagismo James Corner Field Operations e com o ateliê de arquitetura Diller Scofidio+ Renfro.

Podia pensar-se que iam fazer daquilo um jardim monumental e com espécies exóticas, mas não. Tiveram o bom senso e o bom gosto de deixar lá ficar as plantas que tinham espontaneamente crescido, agora mais organizadas e tratadas, mas teimosamente loucas no seu crescimento. As espécies, sobretudo nativas, foram «escolhidas pela sua resistência, sustentabilidade e variação de texturas e cores», como se pode ler numa placa informativa.

Como qualquer pessoa, também gosto muito de jardins botânicos e jardins tropicais, mas dá-me ideia de que usar as espécies nativas traz todas as vantagens, e mostra a que ponto este passeio público foi pensado ao pormenor e com decisões que têm tanto que ver com o século que vivemos. Sustentabilidade é a palavra-chave neste raciocínio em tempo de alterações climáticas e crises a vários níveis.

 

Iniciamos o percurso subindo uma rampa que permite a passagem de cadeiras de rodas (noutros locais haverá elevadores para esse efeito), no ponto geralmente considerado o término, na Rua W 34, entre as avenidas 10ª e a 12ª. Temos a intenção de ir até à outra ponta e visitar o Whitney Museum, mas isso fica para depois. Dirigimo-nos ao rio, para andarmos um pouco ao longo da margem – e da 12ª Avenida – no frio seco da manhã de inverno.

A estrutura do antigo caminho-de-ferro está à vista mas foi retrabalhada a pensar em quem passa, em quem quer descansar e até também nos mais novos.

E aí deparamos com uma quantidade exuberante de comboios, linhas e linhas paralelas que constituem o depósito de carruagens e composições, ao fundo da Pennsylvania Station. É uma visão gigantesca e fantástica, e o som dos comboios sobrepõe-se à banda sonora habitual da cidade – sirenes de polícia e de bombeiros, helicópteros que parecem estar sempre a voar. A baixa temperatura não impede que circulem por ali os cuidadores do jardim, devidamente identificados com coletes.

Viramos as costas ao rio e vamos em direção à 10ª Avenida, por cima da Rua W 30, e passamos por pontos de acesso com escadas – como encontraremos em todo o percurso – sobreviventes com décadas de uso. Aqui, a vegetação é apenas a que nasce espontaneamente, numa rudeza que parece convidar-nos a olhar para o rio Hudson e para o lado de lá, a zona oriental.

Estamos a caminhar por cima da 10ª Avenida, num longo percurso que nos mostra este lado da cidade, onde novos edifícios substituem os que presumimos que foram desaparecendo. A estrutura dos antigos caminhos-de-ferro está à vista mas foi retrabalhada a pensar nos mais novos. E há mesmo algumas crianças, embrulhadas em casacos e gorros, brincando por ali, em pequenas aventuras de saltos e altos e baixos, perigos imaginários porque tudo está devidamente protegido.

Continuamos a andar mas temos uma área de descanso com bancos de madeira, como se estivéssemos numa estação de comboio antiga, e aqui as plantas são mais exuberantes. Nada que ultrapasse as magnólias que nos esperam um pouco mais à frente, numa passagem entre vários edifícios de maior envergadura. Logo a seguir, um grande relvado que deve ser bem simpático para piqueniques quando a temperatura estiver amena. Por contraste, passamos depois para a zona nobre Chelsea, cheia de árvores e arbustos, e também aí imaginamos como em meses mais quentes as flores e os cheiros serão convidativos.

Deixamos a «floresta» e mais à frente temos uma paisagem que se abre sobre o rio novamente e nos mostra a Estátua da Liberdade ao fundo. É sempre bom vê-la, já se sabe, mas deparar com esta visão inesperadamente e enquanto passeamos sem pressa, com toda a carga de história e de atualidade que nos vem à cabeça, sabe ainda melhor.

Estamos numa zona que foi realmente industrial e isso sente-se nos edifícios de tijolo vermelho, já a aproximar-nos do fim da viagem. Um pouco à frente, na Chelsea Market Passage, encontramos uma esplanada onde paramos para um café que nos aquece um pouco. Dá para perceber que há aqui atividades culturais. Falta-nos caminhar ainda para chegar ao fim e procurar o Whitney Museum, mas há agora chaises longues de madeira que correm engenhosamente sobre rodas e nos obrigam a uma pausa. E chegamos à zona coberta, sobre a Rua W 14, onde vemos artistas expondo pinturas e fotografias e aproveitamos para comprar boas recordações. Resta-nos ir até à plataforma final que foi cortada abruptamente, estendida no ar para mostrar como todo este passeio podia não existir se o desmantelamento da High Line tivesse sido concretizado.

Está na hora de descer para o museu, num edifício desenhado por Renzo Piano. Pois é, mas hoje é terça-feira e portanto o museu está fechado. A arte dos séculos XX e XXI fica por ver, nada a fazer. Em alternativa, há galerias por perto e um almoço bem bom e supersaudável no Bubby’s (73 Ganservoort Street). A decoração e a comida confortam-nos devidamente. Mas nada de tranquilidade excessiva, que a nossa longa caminhada vai levar-nos ao World Trade Center e aqueles dois lagos sem fundo do Memorial do 11 de Setembro vão deixar-nos sem fala.