Home DESTINOS Um roteiro diferente por Óbidos e Peniche

Um roteiro diferente por Óbidos e Peniche

0
0

Uma bela vila de pescadores com casas e cores diferentes das medievais

Longe da velha muralha da fortaleza de Óbidos estão as praias de Peniche, que dão cores e vida ao cenário que se descobre por quem deseja conhecer algo mais naquela região. A praia d’el Rey com o verde esmeralda que tem as águas do mar, dar um toque de vida agitada ao local, que tem o hotel mais antigo com piscina, campo de golfe. Trata-se do  o Praia D Él Rey Mariott Gof &  Beach Resort.

Tudo começou na década de 60 num complexo de casas de verão erguido entre Óbidos e Peniche, desde o final dos anos 1960. No último ano, uma remodelação completa trouxe-lhe nova vida, com a intenção de o transformar «num resort de referência na Península Ibérica», desvenda o diretor-geral, Miguel Andrade, ele mesmo agente dessa mudança. Sabe que tem ali os campos de golfe mais populares fora do Algarve, e que os clientes chegam de toda a parte do mundo: Escócia, Inglaterra, Alemanha, ou ainda de outros continentes, da América e da Ásia. E Bélgica, também, como dantes.

Carlos, o taxista que já foi marinheiro, nascido entre a praia e a Serra d’el Rei, lembra-se bem de quando «os belgas começaram a chegar, a comprar terrenos e a construir. Foi logo depois da independência do Congo». De como ali cravaram o gosto pelo golfe, que haveria de atrair a atenção hoteleira. O Marriott Praia d’el Rey tem hoje dois campos – um deles já premiado, o West Cliffs, inaugurado em 2017 – sendo que para frequentar o mais antigo basta sair do hotel. Ambos fazem parte do leque de serviços oferecidos, entre salas de reuniões, spa, diversos restaurantes.

Mas nem só de golfe vive a Praia d’el Rey, ou a do Bom Sucesso, ou a Lagoa, pequeno paraíso entre aquele vasto areal que liga os concelhos de Óbidos a Peniche. Em pouco mais de 20 km há muito por explorar, mesmo quando se é movido apenas a curiosidade.

 

Ouvir o vento, passear no mar

O vento mudou. Peniche continua fresco, ventoso, mas desde que se tornou na capital da onda e do surf, ganhou outros ares. Há turistas pela cidade o ano inteiro, e não apenas no verão, como dantes. Deliciam-se com o porto de pesca, com a história do Forte, com os episódios que se contam por toda a parte sobre as fugas dos presos políticos, nos tempos da ditadura, em que foi transformado na mais temida prisão do regime. Não há como escapar à sensação de ouvir Amália, nos versos de Alan Oulman e na música de David Mourão Ferreira: «ao menos ouves o vento, ao menos ouves o mar». Transformado recentemente em Museu da Resistência e Liberdade, o Forte é um dos pontos de interesse nas viagens do ODISSEIA VIVA.

O barco vai de saída e o proprietário, Tiago Bernardino, prepara os tripulantes para um passeio mais curto do que o habitual, porque o mar está agitado. A bordo deste catamaran com apenas sete meses, nem sempre é fácil chegar às ilhas Berlengas, a 7 milhas do porto de Peniche. Mas é-o muitas vezes, desde que os barcos passaram a ter outra robustez e comodidade, o que torna a experiência sublime.

Antes do Odisseia Viva, Tiago fazia estas viagens com uma baleeira que ele próprio restaurou. Porém, «sentia que fazia falta alargar a oferta». Mandou construir o barco ali mesmo, nos estaleiros de Peniche, criou três rotas, e fez-se ao mar. Ao entrar, os passageiros são convidados a instalar uma aplicação criada de raiz para o barco, e basta colocarem uns auriculares para ficarem a saber a generalidade da história de Peniche, à medida que se vão avistando as relíquias da península: o Forte, o Cabo Carvoeiro, a Berlenga, ou tão só o aglomerado de casas dos pescadores, que as pintavam de várias cores para melhor as avistarem do mar.

Quando o tempo está de feição, é possível mergulhar a partir do barco. Ou apenas relaxar, degustar uns Esses – o bolo típico de Peniche que muitas pastelarias fazem, mas é uma perdição na cervejaria Boina Verde – acompanhados de um Ginja de Óbidos. Há quem requisite o barco para festas privadas, de dia e de noite.

 

Pedalar com vista para o mar

De volta à terra, há um BAÚ D’AVENTURAS para abrir. Basta seguir a pé pela Avenida do Mar, chegar ao centro, e entrar naquele novo espaço dedicado à animação turística. Carlos Vicente já correu o mundo, mas foi a Peniche que decidiu voltar para abrir uma nova porta ao turismo. A par de João Vala e de Sandra Stubenvoll (uma sueca que se apaixonou pelas praias dali e ficou), criou vários itinerários para visitas guiadas, com a grande novidade do aluguer de bicicletas. E há passeios que são incontornáveis, como a ida à Papoa, de onde a vista para o mar é de cortar a respiração. Ou a visita ao local onde Pedro e Inês viveram um amor condenado pela coroa portuguesa e pela sociedade, e onde nasceram três dos seus quatros filhos.

Caso se queira dali regressar ao centro de Peniche, vale a pena procurar um lugar na esplanada da pastelaria JAVA HOUSE, «irmã» do bar com o mesmo nome. Tany e Sérgio Viralhadas dedicavam-se ao mar – tinham dois barcos de turismo para as ilhas Berlengas – quando há 15 anos decidiram mudar de vida. A pastelaria nasceu há cinco, e tem-se especializado em bolos e gelados confecionados por Cláudia, irmã de Sérgio. A montra é de arregalar os olhos, numa explosão de cor pouco usual na pastelaria portuguesa. São as influências que Tany trouxe do Canadá, onde nasceu, e dos países onde já morou. Mas também há tostas de pão de alfarroba com pasta de abate e ovo, saladas frescas, crepes e sumos de fruta natural.

 

O marisco e as bruxas

Na cidade, há sempre outras alternativas. Mas a MARISQUEIRA MIRANDUM é incontornável para quem quer provar o melhor marisco (e peixe fresco) da costa. É um negócio de família que começou em 1981, quando Eduardo João e a mulher, Maria de Lurdes, decidiram trabalhar por conta própria, ao cabo de anos nos restaurantes dos outros. Ela ainda põe o avental todos os dias e ajuda o filho, Nuno, na cozinha da marisqueira. Cá fora, na sala (que é pequena, por isso convém sempre fazer reserva antecipada, seja inverno ou verão), a nora Patrícia distribui simpatia no atendimento. E então é hora de saborear cada petisco: os perceves, a (gigante) ameijoa à Bolhão Pato, a sapateira recheada, o camarão-tigre grelhado, ou as tradicionais «bruxas», que noutras zonas do país se chamam «grilos» ou «santiaguinhos». Mas a experiência só fica completa com a sobremesa da casa – um gelado de pêra rocha (do vizinho Bombarral) com brownie de chocolate. Também há quem prefira o gelado de caipirinha. Imperdível.

Por ali encontramos António José Correia, antigo presidente da Câmara, um amante do surf que transformou Peniche na capital da onda. Também ele acredita que há ainda «muita estrada para andar» no território e na oferta a quem visita a península. Nos anos recentes, com a crise na pesca da sardinha – um dos emblemas de Peniche – Tózé (como é tratado por todos) Correia apostou nas conservas de cavala como oferta aos visitantes em atos oficiais. A verdade é que, de peixe-pobre, a cavala subiu de escalão à mesa das iguarias.

 

Pela mão das rendilheiras

Antes de uma incursão nas praias, é obrigatória uma paragem na Rua Alexandre Herculano, onde a ESCOLA DE RENDAS DE BILROS exibe o melhor daquela arte. Várias gerações de rendilheiras estão alinhadas na sala envidraçada, seguram no colo uma grande almofada, sobre a qual vão trabalhando o cruzamento sucessivo ou entremeado de fios, com a ajuda dos bilros.

Georgina, 83 anos, é uma das mais velhas. Fez muita renda para fora, num tempo em que, mais do que uma arte, «isto servia para matar a fome». Hoje serve-lhe para matar o tempo, para se entreter, enquanto ensina as meninas mais novas, que fazem daquela arte uma espécie de ATL (Atividades de Tempos Livres). Vão longe os tempos em que a renda de bilros se quedava pelos lençóis e toalhas. Hoje é fácil ver perpetuada uma arte com 400 anos em roupa de vestir, mas também em brincos, colares e outros assessórios. Cecília, por exemplo, dedicou-se à renda de bilros quando a fábrica de conservas fechou, e alia o prazer ao negócio. Além da escola, há ainda o Museu da Renda de Bilros, também a visitar.

 

Tiago Bernardino diz que Peniche tem «o pôr-do-sol mais lindo do mundo», e esse bairrismo perpassa nas gentes da terra. Talvez seja esse o segredo para a nota positiva que é preciso dar ao atendimento ao público, em qualquer lugar. E se é do entardecer que falamos, é hora de rumar ao Baleal, a praia de areia branca e mar-turquesa, separada em norte e sul pela única estrada que liga a povoação da ilha a Peniche. É aqui que um punhado de bares faz as delícias de nativos e forasteiros. No DANAU BEACH BAR, a surpresa chama-se cozinha: as saladas coloridas, a sandes de legumes assados, ou a salada de queijo de cabra conquistam qualquer um, mas é a papaia recheada (com iogurte, granola e fruta) quem mais ordena. Diogo Neto e a irmã, Sara, dividem o tempo entre a escola de surf e o bar, onde à noite acontece uma espécie de metamorfose: as mesas e bancos de madeiras são arrumados nas traseiras, um DJ solta o som, ou uma banda sobe ao palco.

 

A noite e o riso

À mesma hora, em Peniche, há bares para gostos distintos. Pode ser o TRÊS AS, com uma decoração muito peculiar, ou o JAVA, mesmo ao lado, especialista em gins desde a primeira hora, com uma seleção musical bem ao estilo dos ’90.

Se estamos no Oeste, é incontornável uma volta pelo Bombarral – e todo o esplendor das provas de vinhos – onde a QUINTA DO SANGUINHAL é herdeira do património de Abel Pereira da Fonseca. Recebe-nos Ana Reis, bisneta do visionário, amigo e contemporâneo de Fernando Pessoa. Ali mora uma das mais antigas destilarias da região, assim como um dos maiores e antigos lagares da Península Ibérica. Além das provas de vinhos, é possível visitar a quinta e as vinhas, atualmente muito procuradas para eventos, e até casamentos.

O regresso a casa pode fazer-se com paragem na medieval Vila de Óbidos, onde acaba de abrir portas a BIBLIOTECA CONSERVEIRA, com a beleza de loja a que a fábrica de conservar Camur, da Murtosa, já habituou várias cidades do país. E dali saltar para a PORTA 7, e provar uma bomboca ou saborear a tradicional ginjinha em copo de chocolate. É no final deste roteiro que fica o segredo mais bem guardado do Oeste: JAMON JAMON, o restaurante que nasceu com quatro mesas e um fogão de camping, no Espaço Ó, e que há cerca de um ano se mudou para junto da muralha. O peixe ou a carne são exemplarmente confecionados, o rol de sobremesas também. A magia saiu das mãos de André Pontinha, 29 anos, que «nunca teve jeito para nada», até descobrir a gastronomia. E agora o mundo inteiro passa pela sua sala de jantar, o que tão bem vai com todo este mar que nos passou diante dos olhos.